domingo, 17 de fevereiro de 2013

Tenho 1 parafuso a menos?..Desculpa!..tenho é 2 a mais. -(1/3)



LUCUSSE, mês de Dezembro de 1970.

Uma vez mais, achei que fui “indevidamente” escalado. Ainda por cima, estava dispensado pelo Comandante do Batalhão de ir às operações para garantir a emissão da “Rádio POP”, (nessa altura a Emissora recém formada por mim Pimenta, Giga e Vitor Santos, era ainda quase um embrião daquilo que se tornou) sabia que a falta do técnico da sonoplastia, tornava impossível a Emissão. Era certo que no mato, não saberíamos hoje pela rádio “através de códigos” quem tinha a  Correspondência

Todo o pessoal escalado protestou, porque achavam que não era a nossa vez e porque era dia do ansiado correio. Também Eu pensava o mesmo.
Combinei com todos que os carros iam partindo um a um o mais espaçados possível, para atrasar de propósito a saída. Ia improvisando "Ei pessoal, alguém viu o meu Trótil? sem os petardos não posso sair". Sabíamos que o avião estava mesmo a chegar. Até já se ouvia o barulho, faltavam pois poucos minutos.
Os camaradas que foram para a pista dar protecção à sua chegada, estavam avisados e rapidamente trouxeram a correspondência. Recebi a nossa, e parti.

O objectivo principal desta operação era a procura de minas porque na noite anterior soubemos ter havido o rebentamento de uma, do qual resultou alguns feridos graves.

E assim com algum atraso, já na "posse" dos detonadores e petardos, e também da correspondência, o meu Unimogue  conduzido pelo Couto foi o último a sair. Quando alcançar a coluna, “por ser o Furriel das Minas e Armadilhas” passarei para a frente na minha posição habitual na berlliet, que atapetada de sacos de areia para nos proteger dos estilhaços, era o nosso “Rebenta Minas”.
(Eu na posição de cajado-arma,... para demonstrar que nunca se deve fazer)
( * )  Rebenta-Minas com uma segurança de fazer inveja aos americanos no Kosovo ou Afganistão

Alguns foram contemplados com um Aerograma ou Bate-Estradas, inclusive Eu e o condutor. Como Eu, também Ele quis ler o seu. Abriu-o, e quase colado ao volante lá ia lendo e conduzindo ao mesmo tempo. (sei hoje que Ele tem uma versão um pouco diferente desta). Eu ia sentado ao lado dele com a G3 fazendo de porta, com o cano pousado no suporte do espelho retrovisor lateral e a coronha metida no lado do banco.


Bem antes de nos embrenhar-mos no mato não muito longe do Quartel, mas ainda na picada com mais de 400 Km que liga a cidade do Luso à Vila Gago Coutinho, percorríamos pela berma, os poucos metros da única zona asfaltada para fugir dos buracos existentes. A certa altura, o Couto ao olhar em frente quis desviar-se de um obstáculo indo “calcar” uma mina (artesanal concerteza). De imediato se descontrolou e o Unimog mergulhou barranco abaixo. 

(Farta-mo-nos de percorrer esta "estrada" do Luso a Gago Coutinho e vice-versa, a escoltar o M.V.L.)

Todo o pessoal que ia sentado no banco atrás foi catapultado, enquanto que Eu, naqueles poucos segundos de descida, agarrando a arma pensei, salto não salto, e acabei no chão caído de bruços com os braços esticados para a frente.
Depois só recordo o esforço tremendo que fiz, para me safar do Unimog, (que estava à minha frente oscilando tombado de lado, numa posição instável a 90º ameaçando cair-me totalmente em cima), porque estava preso, não conseguia fugir. Por sorte não fiquei esmagado debaixo da viatura. Rapidamente o pouco pessoal que estava incólume, me colocou em segurança.

Há uns tempos que andava com uma irritante impinge que não passava. Percorreu-me a cara toda, e naquela altura situava-se no nariz. (Ainda hoje nas confraternizações, o pessoal da minha secção se ri do pedido que fiz naquele momento aflitivo). Não conseguindo mexer os braços, pedia que me coçassem o nariz.

Já na enfermaria do quartel, chamaram a avioneta que trouxera o correio e que estava de regresso. O piloto que Eu já conhecia, gracejou: olha quem é Ele, finalmente o Furriel como passageiro. Teria achado graça, se não estivesse triste e com dores. No preciso momento do acidente, tinha acabado de ler no aerograma que recebi dos meus Pais, “Desejamos-te um Feliz Natal”. ..Sim senhor, Belo Natal.
Ali estava Eu no chão da avioneta “ensanduichado” e nú, numa maca a caminho do Hospital Militar do Luso. Ao meu lado de pé, o Furriel Jorge (enfermeiro), com uma mão agarrada ao tecto e a outra segurando o frasco do soro.

Soube depois que tinha partido com fractura em diagonal, o braço “úmero” esquerdo, e uma forte dor no ombro e clavícula do direito. Fui operado, ao braço partido, ganhando o estatuto de pessoa ajuizada porque "como se vê" passei a ter dois parafusos a mais que ainda hoje permanecem.

(Os parafusos não deviam sobressair do osso. Eu que o diga "pelas dores que passei", mas era o que havia)

Fiquei internado na Enfermaria dos Sargentos, e tinha como companheiros: um africano catanguês, crivado de balas que dizia não saber como tinha escapado, e um Furriel com os dedos esfacelados. Com uma bola enorme de gaze em cada mão, chorava porque além das dores, não conseguir escrever em condições. Numa instrução "armado em Técnico de Minas" ao desmontar uma granada, rebentou-lhe o detonador quando o tinha entre mãos.
No chão havia algumas folhas de papel amachucado, porque “sem dizer aos pais”, queria escrever a carta semanal. Espetava a esferográfica na gaze com os dentes tentando escrever, mas sem o conseguir, mudava de folha.

Eu, com os dois braços temporariamente inutilizados (um, com gesso desde a mão até à omoplata e o outro, colado ao peito com uma gaze enorme), sentia-me impotente. No terceiro dia de manhã, chamei por diversas vezes o enfermeiro de serviço (que gostava do desenfianço) mas em vão.
Como estava “à rasquinha” resolvi levantar-me sozinho. Deitado de barriga para cima, deslizei as pernas para fóra da cama, e tentei pôr-me de pé fazendo balanço. Falhei as primeiras duas tentativas, e como não há duas sem três: o impulso foi tanto, que acabei esmurrando a cara ao cair “desamparado”, de bruços no chão.

Nessa tarde na consulta, contei ao médico o sucedido e pedi autorização para me deixar sair do hospital, para ir morar numa vivenda alugada pelos colegas da Companhia 2506, onde até tinha se necessário, um Enfermeiro. Acedeu mediante condições*

 








Também Eu nunca escrevi aos meus Pais a contar o sucedido, e preocupava-me porque nas visitas o pessoal dizia-me: é pá Só os braços?, tiveste sorte!!, disseram-me que tinhas partido as pernas e tudo. Se a tão poucos quilómetros a notícia já ia assim, como chegará a Portugal?

A tristeza era maior que o sofrimento. Sem querer tornei-me um “dependente”. Ninguém imagina o que é ter de pedir ajuda aos colegas “durante tanto tempo”, para me darem a comida à boca, fazerem-me a barba e não só, até as necessidades mais básicas. Brincavam comigo: é Pimenta, estás a ficar amarelo, queres cagar? Por vezes até era verdade. Estou-lhes grato até hoje, pela atenção, dedicação, amizade. Demonstraram pois, que camaradagem não é aquilo que existe nas bicicletas.

Era a altura do calor. Assim sobrevivi três meses “sem os dois braços”, e mais um mês só com o gesso, num. Mesmo com dores, o braço direito foi “dado como pronto”.
Metia aftershave todos os dias pelo gesso abaixo para suavizar o odor, e pedia ao Criador que não deixa-se entrar nenhuma pulga para o interior do gesso, pelos vistos um martírio e coisa muito frequente. Num estabelecimento próximo da vivenda, uma simpática senhora por vezes quando me via passar, dizia para me animar: o nosso Furriel hoje parece mais feliz, tem melhor cara. Um dia até me ofereceu uma espécie de lenço, para substituir o que trazia ao peito a segurar o braço.

Continua...

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