sexta-feira, 27 de maio de 2016

Ficheiros da Memória

Diz a sabedoria popular que um homem só tem a vida completa, quando planta uma árvore, tem um filho e
escreve um livro.


Provávelmente sabendo agora disto, o nosso Camarada Condutor Aguiar apressou-se a justificar a sua existência, escrevendo algumas das histórias que retirou da Sebenta que pelos vistos sempre o acompanhou onde registava os factos mais relevantes.


Podemos hoje reviver um pouco “do acontecido” e seguir-lhe o exemplo. Envia-nos por isso para serem publicadas, as tuas histórias.
Memórias da guerra
                                                                  
Memórias da guerra no ultramar português de 1969 a 1971 por José Aguiar.

Os textos são meras recordações de situações vividas e que ainda se mantêm na memória. (ficheiros da memória)

São vários e em diferentes datas e ocasiões que vou tentando agrupar e identificar.

Os textos transcritos são retirados das sebentas que fizeram parte de um pequeno diário”…”

A ordem não obedece a nenhum plano especial mas sim  a uma busca avulsa de recordações:


01)- Ano de 1969, Campo militar do Grafanil, Companhia 2504,
época de Natal, Dezembro.

O nosso colega auto, condutor de berliet de nome Raul Fernando Feijão de Jesus, mais conhecido pelo Azambuja ou “trotil”, recebeu de seus pais uma encomenda de figos passados e 1 garrafa de aguardente.
Na sua posse, não está com meias medidas;
Dentro da caserna sem fazer grandes convites cá vai disto; come figos e garrafa à boca. O Zé Maria, mecânico auto, acompanha-o e aconselha-o a não beber tudo.
Durante a tarde e noite empinou quase 1 litro de aguardente. Está visto, o Azambuja embriaga-se de tal maneira, que vomita uma espécie de espuma e diz que vai morrer.
O Zé Maria, remata dizendo:- à morres.. morres, assim nesse estado!... e o amigo Azambuja consegue dizer várias vezes:
Óh Zé Maria, se eu morrer, dá-me um beijinho que faz de conta que és o meu pai.. 
 E assim dizíamos muita vez ao Azambuja:
Lembras-te da bebedeira de aguardente quando pedias ao Zé Maria que se morresses te dar um beijinho como se fosse o teu pai!?!.....
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02)- Diário de guerra
transcrição do manuscrito, página intercalada:

“Luanda 21 horas e 15 minutos do dia 21 de Maio de mil novecentos e sessenta e nove. 
Foi naquela hora exacta que pisei solo Africano. Às 21:30 em comboio de cor acastanhada, fomos levados até ao campo Militar do Grafanil.
Aí descemos do comboio e formados lá fomos, isto já próximo das 23:00, até a área 2, local de piso muito areoso e onde existiam 2 instalações, com a cobertura em placas de zinco, servindo a maior para o refeitório e a outra para dormitório.

Quando eram quase 24:00 foi-nos entregue um pano de tenda e uma manta, deram-nos uma bisnaga de pomada repelente dos mosquitos e às escuras lá nos deitámos no chão térreo sem mais nada e enrolados uns nos outros.
A vedação não tinha mais que uma área de 10m2. Ali dentro e fora ficaram furriéis e praças, aproximadamente 140 homens.

Dia seguinte: Quinta-feira, 22 de Maio de 1969.
Correu quase normal (Não sei que normal). A cama é a mesma. Não tomei café. Um camarada já dos velhos, vendeu-me uma sandes e uma cerveja e depois fiquei óptimo. O almoço, fui para a fila de pirilau para receber sopa e batatas com carne. A fruta foi uma banana (aqui não me referi da bebida). Durante a tarde descansei um pouco. Pelas 19 horas aproximou-se o jantar. Também pouco tenho a dizer do mesmo.”
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03)- A pequena história do acidente no primeiro MVL.
Descrição do manuscrito:

Foi no dia 28 de Maio deste ano de 69, seis dias depois de ter chegado a Angola, a uma quarta-feira pelas 07:00 da manhã quando ia agrupado numa coluna militar em escolta a viaturas civis com destino a S. Salvador do Congo,  a cerca de 1100km daqui.
Na véspera foi-me entregue uma viatura Unimog, já havia 3 meses que não conduzia, e naquele maldito dia ordenaram-me para que fosse incluído naquela coluna. Não tive outra solução que obedecer.
Depois de 30km de Luanda, ou a 25km antes do Caxito, a minha viatura  transportava comigo onze homens. O Alferes Costa, o cabo Neto, o cabo Figueiredo e outros soldados. Ia repleto de cunhetes de munições e ainda  granadas de bazucas debaixo do banco.
 
O meu unimog era o último da coluna e a velocidade que ia não passava os 60 km/h.
A dada altura, a estrada estava muito esburacada com lombas ao meio. Um camião civil ao tentar ultrapassar-me buzinou, assustando-me, o que me levou a guinar bruscamente para a direita e para a esquerda, e de novo para a direita e para a esquerda até descarregar todos os ocupantes e a mercadoria para fora da estrada no capim, indo depois dar um pino ficando no meio da estrada.(isto só filmado!.é pena).

Fora a punição que apanhei, deste acidente o mais complicado foram os 14 dias que o nosso amigo Figueiredo passou no hospital, mas acabaram felizmente bem.
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04) - o Edmundo é um rapaz cheio de ilusões. Conheci-o no primeiro dia que assentei praça na CICA 4, em Coimbra.


Foi no comboio que travámos as nossas primeiras conversas. Desde então, nunca mais nos afastámos da  maior parte dos primeiros camaradas que connosco deram entrada no exército.
Na recruta chamavam-lhe o “vietnamita” e na especialidade de condutor no RI6 no Porto era o “chinês”, e aqui é o condutor Edmundo.
Há!...se soubessem as histórias que tenho deste rapaz!...

É um rapazão forte troncado de olhos rasgados, tipo chinês, cara larga e além de tudo sempre com conversas para rir. Aqui, todos o conhecemos assim como  ficou conhecido desde a recruta.
Mas desde que chegou a Angola,  tornou-se outro.
Na vida civil tinha a profissão de cortador de carne em Santarém. Trabalhava num talho e considerava-se muito bom profissional. Agora é condutor de Unimog na guerra de Angola. Está sempre a fazer projectos para quando regressar. Diariamente não fala de outra coisa. Fartamo-nos de rir em todas as conversas e histórias de talhante que conta, só assim passamos esta vida com mais alegria e menos tristeza.

-Luanda,Baleizão,22:00, aos 05 de Setembro de 1969.”
 Tirado de texto manuscrito da sebenta nº.03
 

Tiradas do ficheiro da memória:
- A certa altura no aquartelamento do Grafanil, enquanto presentes, o comandante ten. coronel António Soares, mandou arranjar a parada em piso térreo batido e alisado não dispensando os ajardinamentos com as suas flores preferidas.
Eram canteiros emparedados em diversas formas, cuidados e bem regados,
 e também teriam que ser bem adubados.
Para o processo de adubação, mobilizou os condutores da 2504, para o transporte desse produto.
Falou e pediu a empresários de vacarias na zona da rede de Luanda para fazerem essa doação. Numa dessas deslocações, um dos condutores era Eu, Aguiar, que juntamente a um grupo de homens da companhia munidos  de pás, enxadas, um atrelado à viatura, e orientados por um dos furriéis lá fomos.

Antes da sairmos da parada devidamente prevenidos, lembro-me do comandante, com o seu uniforme de calções habituais, chegar ao pé do grupo e dizer: Se o dono da vacaria puser alguma dúvida, digam que com ordens superiores, vêm buscar merda de vaca para o seu comandante, e… assim lá fomos, rindo e cantando…(Mai2016)

Aqui o Aguiar "a guiar", o Pimenta e não só, em Viana  patrulhando

Convido o Aguiar, a contar algumas dessas histórias do Edmundo, e "como vingança" o Edmundo contar algumas do Aguiar. Ficamos na expectativa....